Vantagem produtiva do sistema light steel framing: da construção enxuta à racionalização construtiva

Resumo

A construção de habitações unifamiliares é caracterizada por ter uma base produtiva essencialmente artesanal, carente da aplicação correta de uma filosofia de gestão com bases científicas. Este fato, associado à negligência dos profissionais na fase de concepção, pode gerar diversas manifestações patológicas e improdutividade. Assim, uma solução viável, visando à melhoria da qualidade e produtividade, entre outros benefícios, é a utilização de um sistema construtivo industrializado como o Light Steel Framing (LSF). Este sistema construtivo, associado a um tipo específico de projeto denominado Projeto para Produção, garante que os princípios da Construção Enxuta sejam adequadamente praticados, visando a Racionalização Construtiva como requisito da industrialização do subsetor de edificações da Construção Civil, possibilitando a produção seriada de residências para conjuntos habitacionais, tornando-o mais vantajoso sobre outros sistemas construtivos. Trata-se de um trabalho com abordagem teórica, cujas etapas compreendem: revisão bibliográfica sobre Projetos para Produção, Construção Enxuta e Racionalização Construtiva, aplicados ao sistema LSF e a determinação da relação entre tais teorias que tornam o sistema LSF mais produtivo do que outros sistemas construtivos para edificações habitacionais.

1. Introdução

A construção de edificações habitacionais unifamiliares é fundamentada, na maioria dos casos, em processos de produção artesanais desprovidos de um sistema ou filosofia de gestão que auxilie na melhoria tanto dos processos quanto do produto final. O caráter artesanal da produção de residências revela o descaso de alguns profissionais para com a gestão dos procedimentos, que também envolve a fase de planejamento e projeto.

O déficit habitacional no Brasil tem fomentado uma série de iniciativas para melhorias e modernização do setor. A necessidade de construção, em número da ordem de milhões de residências, incentiva a Construção Civil a desenvolver e utilizar novos sistemas construtivos e princípios de gestão que garantam a qualidade dos serviços e da edificação como produto final.

A produção de conjuntos habitacionais, como solução imediata do Estado para a carência habitacional, converge para a necessidade de industrialização do subsetor de edificações. Considerando tal segmento da Construção Civil, nota-se que “a construção funciona de forma dissociada, com suas fases interagindo sem coordenação entre si. Entre essas fases existem incompreensões, falta de informações, mal-entendidos, tudo colaborando para que ocorra perda de tempo, erros e repetições. Esta situação é incompatível com qualquer processo de industrialização.” (RIBEIRO; MICHALKA JR., 2003).

Complementando esta citação, a Construção Civil ainda assimila o uso de sistemas construtivos tradicionais e materiais rústicos que permitem a variabilidade da matéria-prima. Como conseqüência pode haver o surgimento de diversas manifestações patológicas, improdutividade e desperdícios, o que não pode ser admitido para bens produzidos em larga escala. Neste contexto, a adoção de sistemas construtivos industrializados como o Light Steel Framing (LSF) pode contribuir para a melhoria dos processos e favorecer a industrialização do subsetor de edificações.

Assim, no sentido da industrialização, busca-se a melhoria das construções por meio da gestão dos processos, o que engloba o projeto até a produção. Blachère (1978) sugere que o conceito de industrialização apresenta relacionamento direto com a racionalização. No entanto, na Construção Civil, assim como em outros setores, não é possível atingir altos graus de racionalização a partir da estagnação tecnológica da produção. Dessa forma, para um melhor desempenho das construções é imprescindível o apelo a métodos científicos viabilizados por princípios, como os da Construção Enxuta, que proporcionem o alcance das metas da Racionalização Construtiva.

2. Objetivos

Este trabalho tem por objetivo promover a discussão e a delimitação das relações entre os conceitos de Construção Enxuta, Projetos para Produção e Racionalização Construtiva aplicados à produção em série de residências em LSF, sintetizando-os para a determinação das vantagens produtivas deste sistema.

3. Breve contextualização da produção na construção civil

Analisando a produção de uma edificação em sistemas construtivos tradicionais, nota-se grande ineficácia com relação ao controle dos processos. Farah (1996) afirma que na Construção Civil “... não há um planejamento prévio sistemático da execução, envolvendo desde o projeto do canteiro de obras até a seqüência das atividades produtivas, passando pelo planejamento das atividades de apoio.

Assim, são freqüentes interrupções do trabalho na obra...”. Além das intensas interrupções na produção, a falta de projetos detalhados e planejamentos condizentes com a realidade da obra pode causar uma série de manifestações patológicas na edificação, além de improdutividade e desperdício de materiais, conforme afirmam Silva e Sabbatini (2007): “A incidência crescente de manifestações patológicas atuais e seus altos custos de correção denunciam a urgência de revisão e reversão deste quadro, o que pressupõe maior estreitamento entre as atividades de projeto e de execução dos edifícios, além de avaliações sistemáticas de seu desempenho ao longo do tempo, num processo contínuo de revisão e aperfeiçoamento simultâneo das práticas de projetar e construir”.

Além disso,profissionais e projetos omissos contribuem para um imediatismo empírico no canteiro de obras. Isto é inaceitável, partindo do fato de que uma edificação, e seus processos, é o produto resultante e dependente da integração de várias ciências.

Conceitualmente, a Construção Civil produz a partir de uma série de atividades de conversão que transformam a matéria-prima em produtos intermediários. Em uma obra, o processo de produção é uma conversão de entradas em saídas, podendo ser composta por subprocessos que irão compor o edifício (KOSKELA, 1992). Neste sentido, fica claro o despropósito gerencial para com os subprocessos. No Brasil, a grande maioria das construções residenciais é realizada por construtores que não possuem habilitação profissional para tanto, desconhecendo o comportamento físico da edificação, apelando para artifícios que substituam o conhecimento técnico e a boa prática (RIBEIRO; MICHALKA JR., 2003).

Analisando a interpretação conceitual, Koskela (1992) identifica as principais deficiências deste sistema. A principal falha neste conceito é a desconsideração das ações que formam o fluxo físico entre as atividades de conversão; tais ações são denominadas atividades de fluxo, identificadas por transporte, espera e inspeção. As maiores responsáveis pelo aumento dos custos e ineficácia produtiva são, exatamente, as atividades de fluxo que chegam a superar as atividades de conversão, além do que as empresas que não dominam totalmente o processo de produção (neste caso, associado a um sistema construtivo), tornam os processos de conversão ainda mais complicados de serem executados (KOSKELA, 1992).

As deficiências do modelo de conversão são significativamente acentuadas, ou possivelmente originadas, devido a falhas de gerenciamento e dissociação entre o projeto e a produção. Para que tais falhas sejam eliminadas, é necessário que os processos que compõem o ciclo de vida do empreendimento passem a considerar as atividades de fluxo e não somente os subprocessos que irão gerar o produto final. Assim, no cenário atual, grande parte dos resultados notados são erros e falhas, como, desperdícios de material, tempo e, conseqüentemente, da mão-de-obra, caracterizando o processo de produção na Construção Civil como sendo ineficiente, com o produto final de qualidade deficiente (FORMOSO et al., 1997).

4. A industrialização das edificações

4.1. O contexto

O grande déficit habitacional no país incentiva os profissionais do subsetor de edificações a buscarem soluções para a modernização das construções visando o incremento da qualidade do produto. Os conjuntos habitacionais, como solução do problema social, apresentam características produtivas e projetuais semelhante às da indústria de manufatura, ou seja, produção seriada.

Assim, a produção em série de habitações fornece as condições necessárias para o emprego de uma tecnologia industrializada. Neste caso, o sistema construtivo LSF surge hoje como uma das principais alternativas ao uso de sistemas industrializados.

Na Construção Civil, o processo de projeto de uma edificação é comumente caracterizado por ser fragmentado e seqüencial, de forma que esta fase do empreendimento torna-se um processo à parte. Como conseqüência, pode haver improdutividade, desperdícios e manifestações patológicas na edificação. No entanto, sendo o LSF um sistema industrializado, torna-se uma premissa a adoção de atividades cooperativas paralelas entre projetos e meios de produção (RODRIGUES, 2006).

As atuais condições de projeto e construção são incompatíveis com a produção de conjuntos habitacionais. Para Fiess et al. (2004) a produção de conjuntos habitacionais no Brasil está inserida em um contexto e condicionada, basicamente, por dois fatores: baixos custos de produção e construção em larga escala, fato que para sua produção, a adoção de sistemas construtivos industrializados representa uma das alternativas para que a Construção Civil almeje o ideal produtivo e qualitativo praticado na indústria de manufatura.

4.2. A racionalização como requisito da industrialização

Gerard Blachère (1978) sugere que o conceito de industrialização, de maneira geral, pode ser
equacionado da seguinte forma:

INDUSTRIALIZAÇÃO = RACIONALIZAÇÃO + MECANIZAÇÃO

Porém, na produção de habitações unifamiliares não há mecanização que atue diretamente na construção do edifício considerando os processos de conversão. Estes são desempenhados por operários que, na falta de projetos detalhados, acabam por tomar importantes decisões técnicas abalizadas na experiência prática pessoal. Assim, resulta que o princípio proposto por Blachère, no contexto do subsetor de edificações, torna-se:

INDUSTRIALIZAÇÃO ≈ RACIONALIZAÇÃO

Considerando o sistema LSF, a afirmação acima se torna bastante coerente, visto que a tecnologia envolvida no produto possibilita atividades essencialmente de montagem, o que incrementa a tecnologia da produção a graus de racionalização tais, que se aproximam da industrialização. A racionalização não é uma condição essencial para a industrialização, porém historicamente, a racionalização é seguida da industrialização (RIBEIRO; MICHALKA JR., 2003). No entanto, para que a produção de uma edificação seja considerada racionalizada, é necessário que as empresas tenham a convicção de que todos os recursos estejam envolvidos, como: tecnologias e materiais, além das fases de planejamento, projeto e execução da obra (FRANCO, 1996).

A Racionalização Construtiva torna-se um objetivo razoável para as edificações, visto que o seu conceito subentende a manutenção da base produtiva, uma vez que a busca pela industrialização requer, muitas vezes, a mudança nas formas de se produzir (FRANCO, 1992). Segundo Melhado (1994), a racionalização é um princípio que pode ser utilizado em qualquer processo ou sistema construtivo, por meio da simplificação de operações e aumento da produtividade que resulte em diminuição dos custos.

No entendimento de Novaes (1996) a Racionalização Construtiva “...configura-se em elemento indutor da otimização de técnicas e métodos construtivos e em instrumento de melhoria da construtibilidade dos projetos, pela sua capacidade de influenciar o processo de projeto.” Portanto, racionalizar a produção significa reduzir o tempo de trabalho afim de que se consiga melhor produtividade (RIBEIRO; MICHALKA JR., 2003).

Melhado (1994) considera a Racionalização Construtiva como uma ferramenta de aplicação direta para a melhoria da qualidade da edificação. No entanto, analisando as definições de Rosso (1980), Sabbatini (1989) e Novaes (1996), pode-se afirmar que para se utilizar os princípios da racionalização é necessária a utilização de um conjunto de ações, técnicas e métodos, ou seja, a racionalização não é um instrumento, mas uma série de objetivos que necessitam de ferramentas para serem efetivamente aplicados.

Com relação aos objetivos da Racionalização Construtiva, Franco (1992) aponta uma série de metas, citadas posteriormente neste artigo, sendo que a maioria delas pode influenciar o processo de projeto (NOVAES, 1996), visando o cumprimento técnico final da edificação. Porém, sendo a Racionalização Construtiva um objetivo da produção, vem à tona o questionamento sobre quais os meios que irão garantir o cumprimento das metas racionalizadoras.

4.3. Da construção enxuta à racionalização construtiva

Para que a produção de um empreendimento seja racionalizada, é necessário que haja um controle cientifico por meio de filosofias de gerenciamento dos processos envolvidos no ciclo de vida do empreendimento, que garanta a racionalização do mesmo. Em particular, a Construção Civil vem incorporando os princípios da Construção Enxuta, termo traduzido da expressão inglesa Lean Construction originada na pesquisa de Lauri Koskela (1992).

A Construção Enxuta, de maneira geral, pode ser entendida pela integração entre o produto e o planejamento de resultados por meio da participação de todos os envolvidos (BURSTRAND, 1998). Como filosofia, a Construção Enxuta caracteriza a Construção Civil como sendo uma indústria provida de um sistema de produção temporário que deve prezar por certos objetivos como: entregar o produto (edificação) de forma que os valores sejam maximizados e os desperdícios sejam minimizados (BALLARD; HOWELL, 2004).

Para Koskela (1997) a essência desta teoria é a consideração de que há dois aspectos em qualquer sistema de produção: fluxos e conversões. Enquanto todas as atividades dos processos consomem tempo e recursos, apenas as atividades de conversão agregam valor ao produto, assim, a melhoria das atividades de fluxo, que não agregam valor, deve ser orientada para a sua redução ou mesmo a eliminação, de modo que as atividades de conversão deverão ser mais eficientes (KOSKELA, 1997). O autor ainda afirma que nas atividades de projeto, ambos os aspectos (conversão e fluxo) devem ser considerados.

O processo de projeto na Construção Civil é algo de grande complexidade, com numerosas interdependências, grandes incertezas originadas pelas decisões, muitas vezes impostas pelos próprios clientes e legislações, realizadas sob pressão temporal, visto que a desarticulação entre as diversas disciplinas do processo é a maior causadora de defeitos no produto final (KOSKELA; BALLARD; TANHUANPÄÄ, 1997).

Projetos suficientemente detalhados que contemplem as várias atividades de produção de uma edificação e suas implicações, como os Projetos para Produção, representam uma das ferramentas essenciais para que os objetivos da Construção Enxuta sejam alcançados. Neste sentido, a gestão dos processos começaria desde a fase de projeto e, inevitavelmente, a produção absorveria os conceitos e práticas da filosofia, culminando com a Racionalização Construtiva e, portanto, com a peculiar industrialização do subsetor de edificações, pois um ideal produtivo (Racionalização Construtiva) é viabilizado pela adoção de uma filosofia de gestão (Construção Enxuta) que movimenta as relações entre uma ferramenta específica (Engenharia Simultânea) e Projetos para Produção, potencializado pelo uso de sistemas construtivos industrializados (LSF).

Considerando a produção de conjuntos habitacionais, a mesma é caracterizada por ter repetição da construção de um único modelo, ou seja, o sistema construtivo que compõe a edificação é reproduzido nas demais unidades que formam o empreendimento. Este fato caracteriza a produção dos conjuntos habitacionais como sendo seriada, possibilitando a padronização de detalhes construtivos bem como de subsistemas que compõem a edificação, fornecendo os subsídios para a produção. Aquino e Melhado (2002) afirmam que a indústria de produtos seriados já utiliza em seus processos os Projetos para Produção há muito tempo, com o objetivo de atingir a integração entre a excelência na qualidade dos produtos e o processo de produção.

Assim, os Projetos para Produção agrupam as informações executivas necessárias para a construção das edificações. Melhado e Fabrício (1998) definem Projetos para Produção como sendo a “definição (em projeto) das seqüências e métodos de execução de determinadas etapas críticas da obra, como forma de se ampliar o desempenho na produção dessas etapas.” Os Projetos para Produção caracterizam a execução, ou o modo de se produzir, simultaneamente com o desenvolvimento do produto, permitindo um melhor entendimento de suas características e das seqüências de produção, minimizando os possíveis erros e imprevistos que possam ocorrer no canteiro de obras (MELHADO; FABRÍCIO, 1998).

Neste sentido, a Construção Enxuta traz importantes contribuições para a construção de conjuntos habitacionais. O caráter produtivo em larga escala destes empreendimentos, assim como na Indústria Automobilística, implica na adoção de princípios científicos para a gestão dos processos envolvidos. A Construção Enxuta, fundamentada em onze princípios, fornece os meios pelos quais a obra passa a ser racionalizada e, portanto, assuma em seus processos um caráter industrial. Partindo deste princípio, a Tabela 1 relaciona as metas da Racionalização Construtiva proposta por Franco (1992) com alguns dos onze princípios da Construção Enxuta propostos por Koskela (1992).

Analisando esta Tabela percebe-se que os princípios propostos por Koskela podem ser considerados durante o projeto da edificação. Princípios como “Aumentar o valor do produto através da consideração das necessidades dos clientes”, “Reduzir a variabilidade”, “Reduzir a parcela de atividades que não agregam valor” deveriam ser contemplados na fase de concepção da edificação, contribuindo para o alcance de altos índices de racionalização.

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Porém, não é certo que se adote uma política de gestão como a Construção Enxuta somente durante algumas fases do empreendimento, ou seja, sem continuidade ou cooperação entre as partes. Na Indústria Automobilística, a Produção Enxuta é adotada com sucesso, pois todo o processo do empreendimento é largamente dependente da intensidade de integração e cooperação entre as áreas funcionais, de maneira que a empresa procura sempre exercer suas atividades de maneira paralela, evitando o seqüenciamento (CONSONI, 2004).

Percebe-se que a Indústria Automobilística obtém grande sucesso na produção, pois há antecipação das atividades produtivas e interferências entre subsistemas e componentes durante o projeto (Engenharia Simultânea - Projetos para Produção). Consoni (2004) assegura que para a ocorrência de tal vantagem na manufatura, é necessário que haja intensa troca de informações em todas as etapas do empreendimento (entre os processos), o que tende a reduzir os riscos e imprevistos. A aplicação da Engenharia Simultânea se dá com maior eficácia entre as fases da engenharia do produto e a engenharia do processo, necessitando de completa sincronia entre as particularizações do produto e sua futura fabricação (CLARK; WHEELWRIGHT, 1993).

Assim, tendo em vista a necessidade de incorporação dos princípios pertinentes da Construção Enxuta, já na fase de projeto, torna-se necessário promover tal conceito por meios que ofereçam os menores atritos entre as metas da Racionalização Construtiva e os princípios da Construção Enxuta.

 

 



     
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