Os desafios e oportunidades do aço na habitação em série
Os programas de financiamento do Governo criam novas perspectivas para o uso do material

Com a perspectiva de continuidade da expansão do setor de construção civil, há um enorme potencial de aumento no consumo de estruturas metálicas. Conforme dados do Sindicato da Indústria da Construção Civil do Estado de São Paulo (Sinduscon-SP), o crescimento esperado para a cadeia da construção – composta pelo mercado imobiliário, por obras públicas, pelo segmento privado de ampliação de unidades comerciais e industriais e pela autoconstrução e reforma pelas famílias – em 2010 é de 8,8%.

Um dos fatores que deve impulsionar essa expansão e as mudanças estruturais em curso na indústria siderúrgica brasileira são os investimentos do governo previstos nos Programas de Aceleração do Crescimento (PAC e PAC2) que incluem projetos como Programa Minha Casa, Minha Vida (PMCMV), Cidade Melhor, Água e Luz Para Todos, Transporte e Energia entre outros relacionados à infraestrutura.

Segundo disse o vice-presidente da Federação das Indústrias do Estado de São Paulo (FIESP) e coordenador do Construbusiness, José Carlos de Oliveira Lima, durante o 21º Congresso Brasileiro do Aço, realizado em abril deste ano, “Até 2030 a necessidade de investimento é de R$ 312 bilhões em novas moradias”.

A Caixa Econômica Federal financiou no primeiro ano do Programa Minha Casa, Minha Vida 408.674 imóveis e, somente no primeiro trimestre de 2010, foram contratadas mais 133.146 novas moradias pelo programa. Conforme site oficial do PMCMV, o Governo Federal está investindo, no total, R$ 34 bilhões em habitação popular destinada às famílias com renda mensal de até dez salários mínimos.

A meta do programa é construir um milhão de moradias e reduzir em 14% o déficit habitacional que hoje é de 7,2 milhões de acordo com dados do Instituto Brasileiro de Geografia e Estatística (IBGE). Desse um milhão de moradias, a maior fatia é das famílias com renda de até três salários mínimos às quais serão destinadas cerca de 400 mil unidades. As linhas de financiamento do programa são subsidiadas pelo Governo Federal e pelo FGTS. Já o BNDES oferece financiamento para a cadeia produtiva do setor da construção civil.

O PMCMV promete gerar oportunidades para pequenas, médias e grandes empresas da construção civil e também promover a competitividade do setor, elevar o nível de qualidade das construtoras e fornecedoras e estimular investimentos em alternativas construtivas de menor custo, menor prazo de entrega e menor impacto ambiental.

Dentre os itens financiáveis, de acordo com o site do programa, estão a implantação, modernização e a expansão de casas e produtos pré-moldados ou préfabricados. É neste ponto que a indústria siderúrgica está apostando todas as suas fichas: no uso em escala do aço como solução estrutural capaz de viabilizar a construção de habitações populares que atendam as exigências do governo.

O arquiteto Roberto Inaba do Departamento de Marketing e Vendas da Usiminas defende que as estruturas em aço devem ser levadas em conta como mais uma alternativa para elaborar todos os tipos de projetos. Uma das características dos sistemas em aço é a praticidade na fabricação de “kits” metálicos que podem ser padronizados para produção em larga escala.

Sobre as vantagens de utilização do aço nesse tipo de construção habitacional, destacam-se: a mínima produção de resíduos no canteiro de obras; a rapidez na montagem; a diminuição de transtornos no entorno da obra; a resistência e durabilidade do material; e o potencial de reciclagem do mesmo. “Não existe aço perdido. Se um projeto for desfeito, todo o aço pode ser reaproveitado”, disse Inaba em entrevista. Além de tudo, as grades e redes de aço estão na lista de materiais de construção com redução de impostos (IPI).

Recentemente, a Usiminas e construtoras parceiras fecharam um contrato com a Caixa Econômica Federal e com a Prefeitura de Volta Redonda (RJ) para construir seis prédios com estrutura em aço para o PMCMV. Serão, no total, 96 apartamentos com cerca de 40 m² cada. As obras irão demandar toneladas do material que será utilizado nos moldes do Sistema Construtivo Aberto estruturado com perfis dobrados a frio, permitindo a adoção de outros materiais para acabamento e complemento.

habitacao-em-aco-7Quick House

Um outro sistema construtivo em aço aprovado para o PMCMV é oferecido pela Quick House Residências Americanas. São casas com paredes de chapas de aço galvanizadas, auto-portantes, com capacidade para suportar estruturas de coberturas e até mesmo outro pavimento, sem necessidade de estruturas especiais adicionais. São módulos metálicos padronizados, parafusados uns aos outros, formando painéis rígidos. A Quick House mantém uma parceria com a empresa Perfilor (Grupo ArcelorMittal) para o fornecimento de perfis de aço galvanizado.

Modelo Cosipa

Conjunto habitacional para o Programa Sonho Meu do CDHU no estado de São PauloO projeto habitacional Cosipa também é modelo para a construção de moradias populares com estrutura de aço. A casa Cosipa foi desenvolvida inicialmente para atender ao padrão CDHU. São 36 m2 de área útil (dois dormitórios, sala, cozinha e banheiro) com possibilidade de ampliação para três dormitórios através da utilização de um “kit” de expansão com 18 m2. No entanto, devido à sua grande versatilidade, é possível a adequação a outros tipos de plantas e soluções arquitetônicas, sendo admitido qualquer padrão de acabamento, do mais simples ao mais sofisticado.

Os telhados da Casa Cosipa são formados também por perfis estruturais de aço galvanizado que são parafusados entre si, proporcionando uma estrutura rígida e ao mesmo tempo leve. A proteção que a camada de zinco oferece ao aço utilizado é de pelo menos 25 anos, de acordo com a norma ASTM B.633, mesmo no litoral.

 

Vila Dignidade

Unidade da Vila DignidadeA questão da escolha correta do sistema construtivo é fundamental para executar obras breves. Para programas habitacionais como o PMCMV o fator tempo é um dos mais relevantes e as construções à base de alo podem ser levantadas de forma mais rápida e com um custo relativamente baixo.

Um exemplo disso dói a construção, em Steel Frame, das casas de interesse social em Avaré, interior de São Paulo. São 22 casas de 42 m2 com sala e cozinhas conjugadas, quarto e banheiro, ao custo unitário de R$ 44.300,00. Trata-se de um empreendimento da Companhia de Desenvolvimento Habitacional e Urbano (CDHU) para o projeto Vila Dignidade, um programa habitacional voltado ao atendimento de idosos por meio da construção de moradias com área de convivência social em pequenas vilas.

Para que o uso do aço fosse aceito, o Instituto de Pesquisas Tecnológicas (IPT) realizou os ensaios de desempenho dos sistemas qualificados pelo Programa da Qualidade da Construção Habitacional do Estado de São Paulo (Qualihab), criando a oportunidade para o Steel Frame ser testado em iniciativas para baixa renda. O sistema custa apenas em torno de 7% mais caro do que a tradicional alvenaria, porque usa fundação do tipo radie que também funciona como laje de piso. As 22 casa do projeto foram construídas em estrutura metálica leve com paredes em placas cimentícias e dry wall.

Ficha técnica dos projetos:
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Complexo Pavão-Pavãozinho

habitacao-em-aco-5No ano passado, a Gerdau Açominas forneceu mais de 500 ton de perfis estruturais para obras do PAC no Rio de Janeiro. Esses perfis foram utilizados na construção de um complexo de edifícios nas comunidades Pavão, Pavãozinho e Cantagalo, destinado a 206 famílias que viviam em área de risco. As obras realizadas pela construtora OAS só foram executadas graças ao uso do aço que permitiu o trabalho sobre um terreno em péssimas condições situado em área de topografia acidentada.

Problemas como impossibilidade de escoramento, declividade de até 58m e ruas estreitas que restringiam o acesso ao canteiro de obras fizeram com que o aço fosse a única alternativa viável para o projeto. Sendo assim, uma das maiores vantagensfoi a eliminação das soldas em campo, todas as ligações foram parafusadas. Outro detalhe não menos importante é que todos os perfis saíram da fábrica jateados e pintados, eliminando a necessidade de acabamento posterior. A soma de todos esses fatores permitiu a execução das estruturas da obra em quatro meses.

Soluções para habitação popular

A construção industrializada é uma opção muito mais rápida e competitiva tanto para satisfazer as exigências do residencial de alto padrão quanto para projetos desenvolvidos para o segmento de baixa renda. As obras com estrutura em aço são comercializadas por valores semelhantes a qualquer outra habitação, isso porque há a necessidade de uma gestão eficiente dos profissionais envolvidos e de racionalização dos meios de transporte e maquinaria. Além de tudo, são seguidos rigorosos padrões de controle de qualidade que vão desde a matériaprima até o acabamento e que, por fim, contribuem para a redução significativa do tempo e do uso de materiais.

Com o objetivo de estabelecer critérios de análise de solicitação de financiamento pela CEF para a construção de edificações em aço, o Instituto Aço Brasil (IABr) e o Centro Brasileiro de Construção em Aço (CBCA) criaram dois documentos: Sistema construtivo utilizando perfis estruturais formados a frio de aço revestidos (Steel Framing) – Requisitos mínimos para financiamento pela Caixa; e Edificações Habitacionais Convencionais Estruturadas em Aço – Requisitos e Critérios Mínimos para Financiamento pela Caixa.

Segundo esses documentos, a utilização de estruturas de aço na construção civil pode ocorrer de duas formas:
1) Como elemento estrutural, na função de pilar, viga, laje ou estrutura de cobertura.
2) Como sistema construtivo (sistema construtivo utilizando perfis estruturais formados a frio de aço zincado, também conhecido como Steel Frame)

Elemento estrutural

O aço, quando utilizado como pilar, viga, laje ou estrutura de cobertura, já é de domínio do setor de construção civil e podeser inserido no conceito de construção convencional, inclusive com possibilidade de expansão e substituição de componentes.

A estrutura convencional em aço foi um dos primeiros sistemas a serem empregados para baixa renda. Pode ser formado por seções em “U” (perfis formados a frio) com até 30 cm de altura e, em média, 3 mm de espessura, adequados para casas baixas, edifícios pequenos de múltiplos pavimentos ou, por peças em forma de “I” ou “H” (perfis laminados) com aço de alta resistência em seções de 150 mm a 610 mm, mais utilizados em sobrados e prédios de múltiplos andares.

Sistema Steel Frame

habitacao-em-aco-7gConhecido também por Light Steel Frame ou LSF, trata-se de um sistema que utiliza perfis de aço galvanizado disponíveis em espessuras entre 0,95 mm e 1,25 mm, unidos por parafusos autobrocantes e pinos especiais. Os perfis formam painéis de paredes, lajes e estrutura de cobertura, além de substituir vigas e pilares de concreto. Esse sistema, por meio do emprego de placas de gesso acartonado para paredes internas, OSB ou cimentícias,telas expandidas de aço zincado revestidas com argamassa, substitui também as paredes em alvenaria de bloco de concreto, cerâmico e tijolos de barro.

O Steel Frame foi difundido fortemente nos Estados Unidos durante o século XIX, quando a população multiplicou-se substancialmente e, por isso, houve a necessidade de recorrer a materiais disponiveis in loco e que utilizassem métodos práticos com o objetivo de aumentar a produtividade para a construção de novas habitações.

A princípio, a madeira foi utilizada como solução (Wood Frame), mas ao término da Segunda Guerra Mundial o aço era um recurso abundante e as empresas metalúrgicas haviam desenvolvido as técnicas da utilização do mesmo devido às condições do conflito. Na década de 1980, diversas florestas foram vedadas à indústria madeireira o que provocou queda na qualidade da madeira. Já em 1991, a madeira usada na construção subiu 80% levando muitos construtores optarem pela utilização do aço imediatamente.

Uma das principais características da utilização do aço como opção construtiva e que permite a rapidez da obra, é o alívio nas fundações devido à redução de peso e melhor distribuição dos esforços por meio de paredes leves e portantes. Outra importância é que o aço substitui com vantagens técnicas, econômicas e ambientais, materiais como tijolos, madeiras, vigas e pilares de concreto. Numa residência, por exemplo, o peso de uma estrutura em Steel Frame com laje mista representa metade do peso de um estrutura em concreto armado.

Fonte:

Revista Construção Metálica - Ed.97/2010

     

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