Construção em aço, leve e sustentável – Siegbert Zanettini

Precursor da construção em aço no Brasil, o arquiteto Siegbert Zanettini analisa a evolução, o interesse das novas gerações de arquitetos e do mercado, e as perspectivas dessa modalidade construtiva no país.

Como tem evoluído a construção em aço no Brasil? Quais são as barreiras que ainda dificultam seu crescimento?
Zanettini
– A evolução da construção em aço no Brasil depende de uma série de fatores confluentes, que começa na formação de profissionais, que é ainda precária. O aço na construção ainda é pouco estudado, seja como disciplina de arquitetura ou de engenharia, e seu estudo ainda se concentra em dois pólos: São Paulo e Minas Gerais. E é mais precário ainda nas escolas técnicas. Mesmo em São Paulo, normalmente se concentra nas escolas ligadas a uma universidade. Algumas escolas do Sul, em Florianópolis e Porto Alegre, estão começando agora. Outra questão importante a favor do aço foi o lançamento do perfil laminado no mercado nacional, já que eu trabalhei quase quarenta anos com perfil soldado. Hoje, porém, já existe a oferta de peças já laminadas por parte das usinas.

O senhor acha que essa situação da falta de tradição da construção em aço tende a mudar?
Zanettini
– As gerações mais novas de arquitetos estão ansiosas em fazer projetos com aço. Atualmente, é possível ver uma grande quantidade de obras pequenas, porque normalmente o pessoal mais jovem faz obras menores, como lojas, casas e pequenos edifícios. Eles ainda estão numa fase de pequena escala, mas já estão usando muito aço. Eu acredito ter ajudado muito a despertar esse anseio que já atingiu um público mais amplo de jovens arquitetos. Muito deles manifestam esse interesse, mas dizem não ter formação ou oportunidade.

E o mercado? Como tem reagido em relação à construção em aço?
Zanettini
– Quanto ao interesse do mercado, eu acho que em alguns setores já houve um progresso significativo, como em áreas industriais, galpões de distribuição, hangares, edifícios com grandes vãos como estádios, aeroportos e estações rodoviárias. Hoje não se faz nenhuma obra importante no mundo que não seja em aço. Todos os arquitetos de renome trabalham com aço em obras de grande porte e que impressionem pela qualidade e pela sua leveza. Alguns de nossos projetos estão dando um avanço enorme, como a ampliação do Cenpes, o Centro de Pesquisas da Petrobras, localizado na Ilha do Fundão, que deve dar um grande impulso ao aço por se tratar da principal empresa do país e que decidiu fazer uma obra desse porte, que é hoje a maior obra em aço do país, com um nível de qualidade mundial.

Quais são as principais características desse projeto?
Zanettini
– Arquitetos de todo mundo já conhecem essa obra e é impressionante o número de pessoas de fora que já têm informações sobre ela. Temos recebido um grande número de pessoas da Alemanha, Inglaterra, Estados Unidos etc. querendo conhecê-la. Ela talvez seja a obra mais avançada que existe em todo o mundo em termos de ecoeficiência e sustentabilidade. Não há outra que tenha a mesma preocupação global com a questão do meio ambiente, com a relação homem com o meio ambiente, preocupação social, a relação da paisagem com todo o entorno, ou seja, não conheço outra obra tão completa como essa. Ela aborda todos esses aspectos, até com a recuperação da restinga, uma mata original do Rio. A Petrobras está recuperando toda a ilha do Fundão, saneando os seus mangues e captando o esgoto das favelas.

Como foi escolhido o seu escritório para realizar esse projeto?
Zanettini
– Nós ganhamos um concurso em que as outras propostas apresentadas eram em concreto ou mistas. O aço, porém, permitiu soluções mais leves e integradas, como um pipe rack de alimentação de energia, para distribuí-la a todos os laboratórios do complexo. Ou seja, a forma é também uma distribuição lógica de mais de 50 tipos de energia através de uma verdadeira 'avenida', com dimensões de 10 m por 4 m. O complexo tem também tetos ajardinados, que funcionam como uma área de convivência, que fica na cobertura do Prédio Central, que é constituído por uma 'árvore' totalmente metálica. Essa solução não teria sido viável em concreto com a mesma leveza e a convergência de centenas de tubos. As obras demoraram cerca de dois anos e, se tivessem sido feitas em concreto, acho que teriam demorado mais de quatro anos.

Qual será o papel da construção em aço nas obras destinadas à Copa do Mundo e aos Jogos Olímpicos?
Zanettini
– Sem dúvida, essas obras serão uma grande oportunidade para mostrar as vantagens do aço, porque hoje não tem mais sentido fazer o cimbramento de um estádio em concreto; ele deve ser necessariamente de madeira ou metálico. É necessário trabalhar com tecnologias mais limpas, que independem do suporte inferior para serem edificadas. Talvez algumas sejam feitas em pré-moldados, mas a grande maioria dos projetos será feita em aço.

Seu escritório vai participar desses projetos?
Zanettini
– Infelizmente não fomos convidados a participar desses projetos e nós achamos que essa questão está muito confusa. Do ponto de vista técnico, as empresas nacionais não teriam nenhuma dificuldade para assumir o projeto e a construção dessas obras. Minha geração de arquitetos poderia fazer esses projetos com muito mais brasilidade, com materiais nossos, com muito mais ecoeficiência e com soluções adequadas às questões locais, às nossas tradição e herança cultural. As empresas estrangeiras vêm com projetos já prontos e, desse modo, corremos o risco de repetir o drama da África. Eu não discuto a qualidade dos estádios que foram construídos na África, mas eu acho que eles são absurdamente equivocados.

Equivocados em qual aspecto?
Zanettini
– Vejamos: o que vai acontecer na África a partir de agora que justifique a existência desses estádios? Nada. Esses estádios precisariam de um entorno de consumo e de atividades complementares que permitam seu funcionamento como arenas. Esse problema também pode acontecer no Brasil. Se for construído um estádio, por exemplo, em Pirituba, é necessário saber como ele vai ser utilizado depois de pronto? Mas esse legado não está sendo considerado. Essas firmas vêm com uma cultura própria e esquemas já meio prontos, que são variações dos temas que elas já usaram em outros países. Tomemos o exemplo de um estádio em Manaus com capacidade para 75 mil pessoas, num estado que sequer tem tradição futebolística. Esse estádio vai custar R$ 750 milhões ou mais – esse é o orçamento inicial, mas nós sabemos que, no Brasil, essas obras sempre acabam custando mais do que o previsto. Cabe perguntar, o que vai acontecer com esse e outros estádios similares depois da Copa?

Não houve nenhuma licitação para a escolha dos projetos?
Zanettini
– Não, não houve; parece que essa questão se restringiu ao âmbito da CBF. Nosso escritório não foi convidado para nada. Aliás, fomos procurados por um escritório alemão, há cerca de dois anos, interessado em nos propor uma parceria, mas eles provavelmente vieram com a intenção de que nós trabalhássemos como despachantes, cuidando da burocracia ante a prefeitura e demais órgãos públicos. Na verdade, não se tratava de uma parceria e, portanto, eu não demonstrei nenhum interesse. Ou seja, ainda estamos na época de importar conhecimento, quando nós não temos essa necessidade. Nós temos capacidade equivalente à de qualquer país para projetar e administrar a obra, tanto na parte de arquitetura como de engenharia. Felizmente, pelo menos todo o aço que será usado vai ser fornecido pelas usinas nacionais, mas as concepções, os projetos, o planejamento urbanístico e toda a parte de infraestrutura não vão utilizar a experiência dos nossos arquitetos e engenheiros qualificados.

O senhor considera viável reformar o estádio do Morumbi para abrigar a abertura da Copa?
Zanettini
– Não há dúvida de que o Morumbi poderia funcionar bem como a sede da abertura. Com um orçamento entre R$ 150 milhões e R$ 250 milhões, seria possível fazer um retrofit nele e deixá-lo perfeito. O aço permitiria uma grande variedade de soluções para cobrir toda a plateia e, com algumas reformulações internas, seria possível obter um estádio com capacidade suficiente. O problema do acesso ao estádio pode ser resolvido por um sistema de monorail aéreo, que faria a conexão com algumas estações do metrô. Nós fizemos um projeto similar no Rio, que não é grande, mas foi construído em cinco meses. Toda a linha e as três estações foram feitas em aço, que é a melhor solução para vãos grandes e altos.

Quais são as obras que seu escritório projetou e estão em fase de implantação?
Zanettini
– Atualmente, estamos implantando os seguintes projetos de grande porte: galpõess industriais da Hines, em Manaus (AM), com 126 mil m²; o Hospital Saúde da Mulher em Belém (PA), a nova sede da Reitoria da Unicamp, em Campinas (SP); o Centro de Pesquisa e de Educação Ambiental do Instituto Cultural Inhotim, em Brumadinho (MG); uma passarela no Hospital das Clínicas de São Paulo, com 250 metros de comprimento, que conecta vários edifícios dessa instituição; o Tribunal de Justiça do Distrito Federal e dos Territórios, que, por causa de sua qualidade ecossistêmica, teve seu nome mudado para Fórum do Meio Ambiente e Fazenda Pública do Distrito Federal. Esta, por sinal, é uma obra excepcional, cujo ancoramento foi feito numa caixa central de concreto, onde ficam a escada e os elevadores. A construção dessa caixa, porém, não acompanhou a montagem da estrutura em aço, que precisou esperar que ela ficasse pronta, o que prova que a construção em aço é sempre mais rápida.

Fonte:

InfoMet / Siderurgia Brasil
Publicação: 17/04/2012

 

 
M_In_int