Arquitetura Inclusiva - Uma nova cultura

A arquitetura inclusiva é a arquitetura que respeita a diversidade humana e gera acessibilidade para todos. Esse paradigma marca uma nova cultura e um caminho promissor aos profissionais que concebem os espaços. É importante compreender através de um breve histórico a evolução desse processo.


A arquitetura no Brasil passou a ser representativa a partir do período Modernista. As cidades de São Paulo, Rio de Janeiro e Minas Gerais foram os territórios privilegiados onde surgiram grandes arquitetos como Lúcio Costa, Oscar Niemeyer, João Villanova Artigas, Oswaldo Bratke e tantos outros de importância impar nesse quadro de valorização da estética brasileira.

Esse período da arquitetura foi muito valioso e marcou profundamente conceitos de estética e construção que são ensinados até os dias de hoje. Um dos mais respeitados personagens desse período foi Le Corbusier um francês que difundiu a base desse movimento pelo mundo. Um dos preceitos para esse tipo de produção era padronizar o homem. O ícone a ser seguido era muito bem representado pelo desenho do corpo humano feito por Leonardo da Vinci que possuía dimensões perfeitas de um homem jovem, saudável e esbelto.

Foi a partir daí, que pessoas deficientes, idosos, grávidas, crianças e todos os cidadãos que fogem ao modelo padrão foram realmente excluídos no ato de projetar. As barreiras arquitetônicas e o desconforto no uso das edificações ficaram evidentes após a Segunda Guerra Mundial, onde veteranos de guerra, mutilados, não conseguiam exercer mais funções.

Após aproximadamente 15 anos do fim da Guerra surge à primeira padronização de acessibilidade nos Estados Unidos. A evolução desse processo de inclusão derivou anos depois no conceito do Universal Design que é o design de produtos e de ambientes para serem usados por todas as pessoas, na maior extensão possível, sem a necessidade de adaptação ou design especializado, apresentado pela North Caroline State University (EUA).

Seus princípios são, essenciais aos profissionais que desejam produzir espaços para a diversidade humana, que seguem:

1- Uso Equitativo;
2- Flexibilidade no uso;
3- Uso simples e intuitivo;
4- Informação Perceptível;
5- Tolerância ao erro;
6- Baixo esforço físico;
7- Tamanho e Espaço para aproximação e uso.


Além disso, fatores como economia, estética, desenvolvimento sustentável, qualidades culturais também devem ser considerados. No Brasil, os deficientes foram esquecidos por muito mais tempo. Somente na década de 80 que começaram a ocorrer transformações no que tange a legislação e algumas poucas intervenções espaciais.

Até os dias de hoje, é possível encontrar profissionais de arquitetura produzindo para o homem-padrão. Uma parcela muito significativa da população continua a ser excluída por falta de condições adequadas.

Segundo o censo de 2000 o número de pessoas com deficiência representa 15% do total de brasileiros e os idosos 8,5%. Esse último grupo mencionado vem crescendo a cada ano, pelos avanços da medicina que proporcionaram um aumento significativo da expectativa de vida. Essas pessoas não podem mais ser esquecidas.

Por isso é importante que haja uma mudança real por parte dos arquitetos no processo de elaboração dos espaços. A legislação está cada vez mais forte, obrigando a implantação de rampas, corrimãos, sinalização, enfim, acesso sem barreiras em locais de uso público.

Uma norma técnica brasileira muito relevante é a NBR 9050/04 - Acessibilidade a Edificações, Mobiliário, Espaços e Equipamentos Urbanos e que tem força de lei federal. Nesse documento existem diversos parâmetros obrigatórios para que as produções arquitetônicas respeitem a diversidade.

Outras legislações que se destacam nesse universo são as leis federais n° 10.048 e n° 10.098 regulamentadas através do decreto 5.296 de 2 de Dezembro de 2004. A primeira trata de atendimento prioritário e de acessibilidade nos meios de transportes e a segunda subdivide a acessibilidade ao meio físico, meios de transporte, comunicação e informação e em ajudas técnicas.

Com essas medidas, aliadas aos empenhos de organizações não governamentais e por pessoas interessadas, a implantação da acessibilidade no Brasil está crescendo. E os termos como inclusão, acessibilidade, direito de ir e vir estão bem mais comuns a população.

A acessibilidade, hoje, está contida em muitos locais, desde as áreas comuns de condomínios, vias de circulação de pedestre, transportes coletivos, mobiliários urbanos até em edificações de uso público. Assim passo a passo, uma rede articulada acessível começa a ser esboçada e as pessoas estão começando a ter mais independência e autonomia.

Os benefícios dessas transformações estão sendo ampliados também para as residências. Isso é bem interessante, porque ao levar esse conceito para a esfera privada, surge uma visão relativamente nova de casa para vida toda. Esse conceito garante que a moradia suporte mudanças e adaptações ao longo dos anos, de modo que atenda as diversas necessidades que cada fase da vida solicita, sem prejuízo ou comprometimento do espaço.

Dessa forma a pessoa pode viver na residência desde a infância até a fase madura se quiser, sem a necessidade de mudar por razões como: riscos reais de acidentes, falta de espaço ou desníveis acentuados, por exemplo.

Os clientes ao conhecerem esse tipo de conceito se interessam muito, pois obtêm espaços mais flexíveis, seguros, confortáveis e de pouco esforço físico e que se implantado desde o início da construção custa um pouco a mais. Na BIO ARQ – Soluções em Arquitetura, empresa que tem como missão aplicar o conceito do Universal Design em seus projetos, tem experiências concretas dessa aplicabilidade.

Uma cliente de espírito jovem, aos 70 anos adquiriu uma residência de 250 m2 no bairro do Jabaquara em São Paulo, o desafio foi transformá-la em uma casa para a vida toda. Hoje, ela mora em um local com: poço de elevador; iluminação reforçada, principalmente nas escadas; corredores amplos; piso sem desnível, além de muita estética e conforto. A senhora relata que sente aconchego em sua casa e recursos como uma lâmpada no trajeto entre o quarto e banheiro a deixa mais confiante, evitando tropeços e quedas no período noturno.

Outro cliente, um importante cartório de São Paulo, passou por reestruturação em seu espaço, para receber piso podotátil, comunicação visual, vaga reservada para veículos autorizados, orelhões com alturas e estruturas adequadas ao uso de cadeirantes e deficientes auditivos, corrimão de duas alturas nas escadas, sinalização em cada degrau, entre outras alterações. Depois de concluído o trabalho, os comentários de funcionários do local era de que não imaginavam que a acessibilidade poderia transformar o espaço em um local mais agradável.

O desafio de produzir para todos é enriquecedor e os resultados são sentidos diretamente. Há uma melhora significativa na vida dos usuários e o papel social do profissional aumenta com essa conquista.

No futuro a acessibilidade terá mais adesão de arquitetos e os resultados de uma sociedade mais diversa e participativa terá alcançado um patamar mais humano.

Vivencie essa transformação!

Desafios da Arquitetura Inclusiva

A falta de acessibilidade é a principal barreira enfrentada por pessoas que convivem com algum tipo de deficiência nas grandes cidades brasileiras. E a inclusão desta importante parcela da população – 24,6 milhões de pessoas em todo o país, segundo o Instituto Brasileiro de Geografia e Estatística (IBGE), é um desafio cada vez maior para arquitetos, engenheiros e responsáveis pela definição e implantação de políticas públicas que permitam aos que têm mobilidade reduzida se locomoverem com autonomia e independência.

“Sinto-me pequenina”. O desabafo é de uma mulher, adulta, diante de mais um entre tantos obstáculos arquitetônicos que ela enfrenta diariamente em Florianópolis. A assistente social Maria Helena Koerich, de 53 anos, é cadeirante e, por isso, sofre uma série de dificuldades para ir e vir na cidade onde vive.

A limitação, é importante ressaltar, não é por conta de sua condição física – ela perdeu o movimento dos membros inferiores quando teve poliomielite, ainda bebê. É, sim, por causas das barreiras que encontra em seu caminho para o trabalho, para utilizar o transporte público, freqüentar um restaurante, ir à praia, enfim, usar os serviços como qualquer cidadão “que paga em dia os seus impostos”, comenta ela.

O tema da acessibilidade ganhou ainda mais força com a promulgação da Lei 8.123, de julho de 1991, que obriga empresas com 100 funcionários ou mais a contratarem pessoas com deficiência. As empresas, indiretamente, foram também obrigadas a rever a arquitetura de seus prédios, para adequar os espaços de trabalho aos novos colaboradores. O Estatuto das Cidades, que determina aos municípios a previsão da acessibilidade em seus planos diretores, também é referência para as políticas públicas locais.

A inclusão e a acessibilidade – e não somente de deficientes físicos, mas de idosos, obesos e gestantes – não é preocupação apenas de setores da sociedade brasileira. A Organização dos Estados Americanos (OEA), por exemplo, estabeleceu, em 2006, que esta será a Década das Américas pelos Direitos e pela Dignidade das Pessoas com Deficiência com o lema ‘Igualdade, dignidade e participação’. Na declaração, a OEA pede o empenho dos Estados para assegurar a inclusão e a participação plena destas pessoas em todos os aspectos da sociedade.

Com o aumento da expectativa de vida, a discussão sobre acessibilidade se espalha por diversas áreas. O IBGE calcula que nos seus últimos 14,6 anos de vida o brasileiro terá que conviver com algum tipo de deficiência física ou mental. E muitos já se preparam para isto.

Há alguns anos, o arquiteto paulista Ricardo Vasconcelos percebeu que muitos de seus clientes na faixa dos 40 e 50 anos estavam interessados em adaptar suas casas para garantir uma velhice segura. “É importante que as pessoas levem esta preocupação também para o seu ambiente de trabalho, não somente em seu próprio benefício”, explica Vasconcelos, mestre pela Faculdade de Arquitetura e Urbanismo da Universidade de São Paulo (FAU-USP) e professor dos cursos de graduação e pós-graduação da Faculdade de Arquitetura da Universidade Presbiteriana Mackenzie.

O debate sobre a inclusão de pessoas com baixa mobilidade física chegou à academia e aos escritórios de arquitetura; porém, Vasconcelos acredita que a sociedade brasileira ainda é ‘muito crua’ neste sentido, mesmo tendo avançado significativamente nas duas últimas décadas. “A inclusão é um desafio para a nossa sociedade. E os arquitetos são as figuras-chave na distribuição deste conhecimento”, avalia.

 

Fonte:

IBDA

     
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